sábado, 1 de maio de 2010

DIAGNÓSTICO PEDAGÓGICO/DISCIPLINAR

Arte/Educação Social


Minha primeira impressão das turmas foi um turbilhão de possibilidades; pois me vieram à mente muitas atuações positivas frente às situações bastante delicadas.

Há muita agressão, desrespeito, as crianças são invasivas umas com as outras. Não é comum esse comportamento, não deve ser considerado comum, pois está além das rotineiras desavenças entre crianças.

A transgressão é natureza do adolescer, mas nesses casos estão imbricados nas dificultosas relações, estigmas, exposições contrárias, negativas, afrontas e até patologias.

Até sabia que o desafio seria grande, mas percebi que o desafio é ainda maior, mas é também do tamanho do meu desejo de ser útil na vida deles. As dificuldades na educação me movem para esses caminhos.

Soa contraditório um espaço de ensino que leva o nome de Frei Galvão, um homem de paz, como patrono, ter um índice de violência tão grande.

As perspectivas do bairro são pequenas, as oportunidades para essas famílias são escassas e em muitos casos se quer existem. As crianças são vitimas da sociedade, das faltas de políticas publicas eficazes e freqüentemente também são vítimas de suas próprias famílias pelo descaso.

Essas crianças em formação (em sua maioria), vivenciam uma deformação de conduta em tempo integral nos espaços da comunidade e pelos casos de agressão que acontecem com dentro da própria escola, eles se habituam com o que é errado, eles convivem com muitas ausências e no espaço que a fé, o respeito, a educação não entram, males que irão ferir sua cidadania para sempre ocupam esses espaços. É uma inversão de valores. Há um esforço por parte da escola em oferecer o que a família deixou de lado, como regras e limites, mas evidente que essa tarefa não é mesmo fácil.

A gentileza causa estranhamento entre eles, a cordialidade é o inusitado; pois ninguém pode dar o que não recebe.

A sensação que me dá é que a lei do mais forte é sempre cobrada dessas criaturas, que pela idade, deveriam ser delicadas, sensíveis e protegidas pelos adultos.

Daí fica fácil entender a agressão gratuita, a ofensa da moralidade do outro, o benefício próprio em detrimento dos demais, uma vez que através da força que eles se garantem, se sobressaem e buscam uma identidade; mais uma vez reflito: inversão de valores.

A arte pode interferir positivamente nesse caótico ciclo pelo seu caráter de humanizar as relações e os olhares.

A ação dos professores nem sempre vai alcançar lugares e não-lugares habitados pelas ausências; mas ao menos no curto espaço de tempo em que o estudante fica na escola ele precisa levar de lá parâmetros que mesmo que divirjam dos de sua realidade, ele possa conseguir refletir a distinção pela linha tênue que separa uma vivência humana saudável da deformação cidadã.

Se o tempo assim permitir e a impermeabilidade do sentimento deixar vazar essas experiências de afeto construídas na escola, através da arte, esses estudantes poderão construir algo capaz de ser um propagador da paz.

Mas sozinhos eles não irão conseguir, ninguém conseguiria; o ser humano é um ser de relações, fruto do meio em que vive e só pode caminhar pelo bem, se for instrumentalizado para isso.


Estou disposto a ser instrumento desse lugar interno, dessa experiência do encontro consigo mesmo, pois a arte educa, sensibiliza, faz ouvir, perceber e criar rizomas para toda a vida.

Que eu permaneça com minhas inconformidades pois elas trazem minhas ações, as idéias surgem para sanar ou mediar situações.

O educador pode ser um diferencial na relação do catalisador de sentimentos que é o aluno; nele, indivíduo em formação psicológica, social, física; estão todas as marcas que outras pessoas deixaram ao longo de sua vida.

Se o aluno chega à margem da sociedade é por que muitas pessoas o colocaram dia a dia longe desse epicentro social; a cada detalhe, a cada ação desmedida, a cada falta de ação ou indução pelo exemplo, esse jovem foi distanciado ao longo do tempo dos parâmetros saudáveis de convivência, de civilidade.

Não são apenas das grandes agressões que se cria um delinqüente; os fatos, por menores que pareçam ser, se somam e constroem através da desconstrução; assim muitas personalidades são formadas, se é que essa é a melhor palavra para se empregar nesse contexto.

Desde um olhar carrancudo, de um grito que fere, uma palavra mal dita ou uma exposição desnecessária, são todas ações que corroboram para aquilo que eles já carecem dentro de suas famílias.

A família é a instituição mais adoentada nesse início de século.

Do mesmo modo, ou até mais grave, a ausência também fere em qualquer esfera social, principalmente na área da Educação; o afastamento, a intolerância, o desprezo, a falta de dizer: "bom dia!!!", a falta de um sorriso; ferem gradualmente essas crianças, embora elas não se manifestem cobrando essas atitudes (até por que não podem cobrar o que não conhecem) mas certamente cobrarão da forma mais transviada possível; desafiando, se fazendo valer (mesmo que de formas negativas) como quem dissessem: "Olha eu aqui!!! Eu existo e quero alguém para se comunicar comigo" evidente que comunicação se estabelece em outros níveis de compreensão da mesma, até por que a violência sempre será o "descomunicar" mas não se pode tratar essa máxima como um dogma; pois o ato de violência comunica muitas mensagens subliminares de seu autor.

Nesses meus primeiros dias na escola, me preocupei em conhecer a garotada, as crianças oprimidas pelos líderes e os opressores mirins que lideram os grupos; busquei conhecer também os espaços, a rotina, as metodologias e os comportamentos para que eu possa pensar de forma estratégica possibilidades para contribuir com o trabalho da equipe escolar.

À mim não bastava elaborar um diagnóstico disciplinar/pedagógico somente pela observação, nessas primeiras manhãs na companhia dos meus novos alunos já estive presente na entrada do turno, nos recreios, nas conversas entre eles e até nas brigas, tentando conversar, estabelecer diálogo. Brinquei no playground, joguei bola com alguns e conversei com muitos.

Como toda criança e adolescente desses tempos, todos eles são facilmente seduzidos pela internet, pela tecnologia, pelo que é digital; mas ainda não vêem, por exemplo, a internet como um recurso para aprender, entendem essa ferramenta apenas como uso para jogos.

Para início de ação recorri aos meus recusos didáticos teatrais para envolve-los nas aulas de artes, para que o aprendizado seja de fato significativo.

Solicitei o Planejamento Político Pedagógico da escola e já estou em profundos estudos da publicação ORIENTAÇÕES CURRICULARES – Proposições de Expectativas de Aprendizagem – Ensino Fundamental Ciclo II - ARTES.

A partir de todo panorama vivenciado nesses dias proponho:

* Elaborarei um esquema de envolvimento desses estudantes com as mídias e novas tecnologias através de um BLOG CULTURAL onde eles sejam as próprias matérias. Essa é uma experiência de sucesso que desenvolvo há anos em outra escola.

* Implantarei as ELEIÇÕES DOS LÍDERES CULTURAIS com a visão de fomentar estudantes voltados para a construção de espaços de arte dentro da escola, em todas as linguagens. Existem muitas lideranças negativas entre os alunos, é hora de transformar esses conceitos.

* Desenvolverei o projeto "O PODER DA GENTILEZA" com intervenções performáticas a fim de estimular pelo exemplo a cordialidade, o respeito, o afeto, o vínculo e a amabilidade. Esta iniciativa de cunho cultural, artístico e pedagógico terá como pesquisa de significado e significações de pesquisa estudantil a canção "GENTILEZA" de Marisa Monte, uma trilha sonora para nossas manhãs.

* Lançarei um código de REGRAS já explicado nos primeiros dias de aula, onde todas elas são lúdicas e sensíveis para a idade dos estudantes. Uma maneira de apresentar a eles que regras fazem parte de toda sociedade, mas que essas leis podem ser divertidas e discutidas por todo grupo. Os estudantes que descumprirem as 5 regras básicas não participarão dos passeios culturais promovidos por mim.

* Trarei companhias teatrais para dentro da escola com espetáculos gratuitos que contemplem temas deficitários na formação familiar desses estudantes como respeito, higiene pessoal, compromisso, etc.

* Organizarei um ciclo de atividades extraclasse com visitas às principais instituições de arte de São Paulo.

* Estarei próximo dos alunos nos recreios, nos horários de H.A. (Hora Atividade) para estabelecer uma contínua formação de vínculo com essas crianças, oferecendo a elas atenção que elas tanto carecem.

* Irei oferecer aos estudantes aulas de artes dinâmicas que os envolvem através do teatro e suas maneiras de interpretar o mundo, nesses encontros priorizarei muito mais a construção de uma identidade pessoal e coletiva em detrimento do mero conteudismo, pois os conteúdos estarão dissolvidos nas ações práticas.

Referências Bibliográficas

• ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. S. Paulo: Cortez Editora, 1991.

• BARBOSA, Ana Mae. Arte-Educação: conflitos/acertos. SP: Max Limonad, 1985.

• VIGOTSKI, Liev S. Psicologia da Arte. S. Paulo: Martins Fontes, 1998.

• SPOLIN. Viola. Improvisação para o teatro. SP: Perspectiva, 1982.

• REVERBEL, Olga. Um caminho do teatro na escola. SP; Scipione, 1989.

• _______________. Oficina de Teatro. P. Alegre: Quarup, 1993.

• _______________. Jogos Teatrais na Escola. Atividades globais de expressão. S. Paulo: Scipione, 1993.

• IAVELBERG, Rosa. Pra gostar de aprender arte. S. Paulo: Artmed Editora, 2003.

• MARTINS, Mirian Celeste. PICOSQUE, Gisa. Didática de Ensino da Arte. Editora FTD, 1998

Referências Audiovisuais

• Arte na Escola – Coleção 2010

• Patch Adans – O amor é contagioso

• Doutores da Alegria – O filme

• Baú do Faz de Conta – TV Cultura

PROFESSOR TIAGO ORTAET®

São Paulo, 26 de Abril de 2010.


As experiências significativas em ARTE realizadas na Educação da Prefeitura da Cidade de São Paulo estão a disposição para serem comentadas. Tranformo minha prática docente e artística num espaço de debates.

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